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Entrevista com Celso Junqueira


08/11/2012 às 13:06
Celso Junqueira 1

Rodson Willyams

A frente de uma das maiores entidades do setor sucroenergético do país, Celso Junqueira Franco é o entrevistado de outubro da Revista Cana S.A. O diretor-presidente reeleito da União dos Produtores de Bioenergia (UDOP) fala sobre os novos desafios e faz uma análise crítica sobre o setor no país. 


Revista Cana S.A. - Nos anos 90 o objetivo do governo era inserir o etanol na matriz energética, hoje qual é o desafio do setor?

Celso Junqueira - O desafio do setor na verdade continua sendo a inclusão na matriz energética, ainda não há uma oficialização, uma política pública clara onde defina qual o percentual de participação do etanol ou da bioeletricidade na matriz energética nacional, isso ainda é uma batalha nossa. Depois, a segunda batalha é em cima dessa política de quais serão as ações que o governo irá fazer para viabilizar esse percentual na matriz a ser atingida em termo de tributos, de tarifas, de maneira a manter uma competitividade do setor. Hoje nós estamos tendo uma concorrência desleal com o petróleo e a gasolina, principalmente em função da política cambial e da política de retenção e o controle da inflação em cima dos combustíveis, que fez com que o preço da gasolina ficasse fixo por seis anos. Isso está comprometendo a viabilidade e a própria continuidade da produção atual, quanto mais o crescimento da demanda que existe pelos carros flex. 


Revista Cana S.A. – Em sua opinião, faltam mais incentivos por parte do governo para o setor sucroenergético?    

Celso Junqueira – É mais do que incentivo, porque o incentivo é algo que você faz para resolver um problema pontual. Um setor como o sucroenergético precisa ter uma atuação estratégica do governo com uma visão de longo prazo.  A partir do momento em que você define a política, é preciso estabelecer as condições para que os seus objetivos aconteçam. Você pode ter planos de safra, ter objetivos de volume de produção e estímulos para que aquele objetivo possa ser atingindo, tanto de produção para o consumo interno quanto para a produção de exportação, porque é interesse para o país gerar divisas também. E hoje a gente fica no conflito inclusive de atendimento, de demanda no mercado interno que tem um teto do preço do etanol em detrimento, de um atendimento de um mercado preferencial que possa remunerar o etanol por ser um combustível limpo e de queda na produção de carbono como acontece hoje nos Estados Unidos, o sobrepreço para se ter um combustível alternativo e limpo. 


Revista Cana S.A. – A que o senhor atribui essa falta de investimentos no setor?

Celso Junqueira – É a insegurança total de retorno no investimento. Não é que seja totalmente inseguro, mas nas condições atuais a rentabilidade é negativa e não há perspectiva de futuro. Hoje o presente está ruim e a perspectiva de futuro não está sinalizada de forma de diferente, justamente por falta de uma definição por parte do governo.


Revista Cana S.A. – O senhor acredita que com a descoberta do Pré-Sal o governo tenha deixado de lado o setor, em relação à produção do etanol?

Celso Junqueira – Foi. De fato quando houve a descoberta do Pré-Sal ficou nítido uma pendência do governo em focar no petróleo e de certa forma tirou totalmente o olhar da campanha do etanol, isso ficou evidente. 


Revista Cana S.A. – Para o senhor, a presidente Dilma Rousseff está fazendo “vistas grossas” para o setor? 

Celso Junqueira – A presidente Dilma Rousseff sempre procura garantir o futuro do país. O grande problema é você conseguir concatenar toda essa visão. Apesar da presidente ter um conhecimento da questão da energia como um todo, esta questão por si só é algo complexo e eu não tenho convicção de que há uma hegemonia de pensamentos do governo federal. Eu acho que a divergência atualmente seja no que está pesando mais forte, e o foco neste momento está na cadeia do petróleo. 

 

Revista Cana S.A – O senhor foi reeleito presidente da Udop recentemente, quais serão os próximos desafios da entidade para essa nova gestão?

Celso Junqueira – A Udop cobre parcialmente junto com as demais entidades, uma defesa dos interesses de todo o setor na questão política e apelações institucionais. A Udop pegou algumas características diferentes das outras entidades, nós cobrimos a demanda da formação de mão de obra e trabalhamos também como provedora de informações a respeito do setor. Então esse nicho que a Udop focou há vários anos, continua sendo o nosso trabalho. Nós sabemos que apesar de ter tido uma redução dos investimentos, ainda há uma necessidade de mão-de-obra técnica no setor, principalmente pelo fato da mecanização da colheita e a expansão em algumas áreas com novas regiões. Então, há uma demanda crescente de mão-de-obra tecnificada e pelo ápice da formação. A Udop, vem conseguindo suprir parcialmente essa demanda, logo conseguirá suprir 100% dela.

 
Revista Cana S.A. – Mato Grosso do Sul está se destacando no setor e também enfrenta problemas de mão-de-obra qualifica. Há algum projeto da Udop para ajudar na qualificação de mão-de-obra no Estado?

Celso Junqueira – Sem dúvidas, Mato Grosso do Sul assim como Goiás e Minas Gerais. Nós tivemos novas unidades em todos esses estados e que não tinha mão-de-obra preparada.  Temos promovido alguns cursos, alguns de formação já estão acontecendo no Mato Grosso também. Na verdade, quem demanda os cursos são as unidades, as indústrias. Hoje nós temos uma concentração maior nos cursos de gestão, de formação gerencial, mas percebemos claramente uma deficiência de mão-de-obra operacional, de mão-de-obra técnica. A Udop já tem uma grade curricular para isso e condições para suprir essa demanda, mas a demanda tem que nascer da origem ou de um munícipio que queira preparar a sua mão de obra, ou ainda da usina que queira promover uma qualificação interna. Nós temos condição de suprir essa demanda desde que tenha a demanda originada pela base.  


Revista Cana S.A. – O Estado de Mato Grosso do Sul investe no sistema logístico e uma das apostas está nas hidrovias, principalmente a Hidrovia Tietê-Paraná. Para o senhor, que já foi conselheiro deste projeto, a hidrovia será uma nova forma opção para escoar toda a produção desta região? 

Celso Junqueira – Sem dúvidas vai ajudar a melhorar o escoamento da produção. Um dos gargalos que temos no agronegócio é o custo de logística, infelizmente se utiliza muito as rodovias.  O Estado do Mato Grosso do Sul chega a quase mil quilômetros dos portos, isso significa que encarece muito o transporte. O uso da hidrovia ou da ferrovia ou de uma combinação das duas juntas, com certeza iria reduzir muito o custo do frete. Quanto mais distante do porto, maior o benefício. E a hidrovia já tem um projeto de investimento de R$ 1,6 bilhão por parte do Governo Federal e do Governo do Estado de São Paulo que vai beneficiar toda a hidrovia, então não tenho dúvidas do investimento da infraestrutura portuária que caberá a cada um, no caso de Mato Grosso do Sul, acho que é importante o investimento portuário, sem dúvidas. Na região mais ao sul do Estado, tem uma alternativa da ferrovia para o Porto de Paranaguá (PR), onde acredito que talvez fosse mais interessante do que a hidrovia. Agora a área mais ao norte do Estado, o mais interessante seria o escoamento via a Hidrovia Tiete-Paraná. Inclusive tem um desafio interessante para o país que seria transposição de Itaipu, se houver nós conseguiremos fazer a interligação da Bacia do Paraguai com a Bacia do Tietê-Paraná. Esse será um desafio interessante e que poderá beneficiar não só o Estado, mas como toda a região Centro-Sul do país. 


Revista Cana S.A. – Outra alternativa seria os poliodutos e os alcoodutos, esse tipo de transporte ajudaria melhorar o escoamento dos biocombustíveis? 

Celso Junqueira – Sem dúvidas, tantos os alcoodutos e os oleodutos, a dutovia em si para combustíveis líquidos é uma solução extremamente interessante. 


Revista Cana S.A. – No Estado do Mato Grosso há o projeto de instalação das Usinas Flex, inclusive na cidade de Campo de Julio, já se extrai etanol de milho e do sorgo durante a entressafra da cana-de-açúcar. Para o senhor, isto é uma forma das usinas atraírem investimentos e deixarem a crise de lado e investirem na inovação?

Celso Junqueira – É uma alternativa principalmente para as regiões produtoras de milho e que estão com uma logística não favorável para o escoamento do milho ou do produto originário do milho. Aí sim, eu acho que o milho pode ser uma alternativa para se transformar em etanol. O investimento adicional na indústria é proporcionalmente muito pequeno. Então, o único gargalo seria exatamente o custo da matéria-prima. A Usina Flex vai ser viável principalmente para as regiões mais centrais do país que tenham uma logística mais desfavorável ou por um produto que tenha commodities ou derivados como o produto final, como por exemplo, a proteína animal. Neste caso, eu acho que o milho poderá ser uma alternativa como matéria-prima produzir o etanol e pode ser uma interessante alternativa para a transformação do etanol. 


Revista Cana S.A. – Neste ano o país já sofreu com diversos apagões no país. Porque o país ainda enfrenta esses problemas já que as usinas greenfield são capazes de produzir bioenergia, uma energia limpa e renovável? 

Celso Junqueira – É verdade, mas acontece que neste nível de teto, o preço que foi colocado, não há uma viabilidade econômica para o investimento. Nós estamos perdendo potencial equivalente a praticamente uma Itaipu e sem gerar nenhum combustível adicional. Por outro lado poderia ser pior, tem setores que existem problemas de mercado ou tecnológicos, mas este não é o caso do Brasil e nem do etanol. 


Revista Cana S.A. – E com relação ao biodiesel, como está a situação do produto no mercado. Houve uma aceitação melhor por parte dos caminhoneiros que no início rejeitaram o biodiesel porque seria mais caro que o próprio diesel? 

Celso Junqueira – O problema do biodiesel é exatamente igual ao do etanol com a gasolina. Dificilmente o consumidor irá pagar mais caro pelo combustível, porque simplesmente ele é socialmente e ambientalmente mais interessante. O biodiesel não vai entrar no mercado se não concorrer com o diesel. E da mesma forma que o etanol está com uma competitividade dificultada, o biodiesel também está. Infelizmente, com as fontes que existem hoje, eles só são econômicos quando há uma forte depressão nos preços das commodities agrícolas. Então isso também precisa ser um capítulo a parte da matriz energética quando você cria estímulos para viabilizar o biodiesel com algum tipo de incentivo.

 

Revista Cana S.A. – A criação de um mercado futuro voltado para o setor sucroenergético seria uma alternativa para tranquilizar os empresários e fazê-los retomar os investimentos?   

Celso Junqueira – Há um desafio grande para que o etanol se transforme em commodity internacional. Esse desafio está cada vez mais difícil devido à precificação futura do etanol que até hoje não aconteceu no Brasil. Existe um pleito do setor para que se tenha uma equiparação da gasolina com o mercado internacional em bases equitativas, mas iremos correr o mesmo risco do mercado internacional da gasolina. Agora, o que não pode é ficarmos vulneráveis a ação política do governo federal, onde praticamente é feito um dumping da gasolina, tanto produzido internamente quanto do petróleo importado, da gasolina importada com relação ao etanol. Isso é desleal e situações como essa não poderiam ocorrer. 


Revista Cana S.A. – Quais são as tendências para os próximos cinco anos? 

Celso Junqueira – Gostaria de poder dar um depoimento com muita convicção sobre a tendência de futuro. O que observamos é uma demanda de mercado crescente, tanto para o etanol quanto para o açúcar, que tem um crescimento vegetativo de 2% a 2,5% ao ano. Não existem muitos países no mundo com capacidade de produção para abastecer esse crescimento por um longo prazo. Nos últimos anos nós tivemos alguns crescimentos de alguns países que vieram suprir parte dessa demanda, mas elas foram se exaurindo com o tempo. O Brasil com certeza será a grande alternativa para abastecimento deste mercado crescente de açúcar. Porém, o mercado de etanol é muitas vezes superior a este mercado, qualquer política bem direcionada para o etanol será positiva. No caso do mercado interno, para você ter uma ideia, hoje nós estamos abastecendo apenas 1/3 da frota flex do país com o etanol. O restante já foi para gasolina. Portanto, existe um mercado interno enorme, está faltando investimentos com condições para o investidor da produção fazer o atendimento deste mercado. Acredito que se o governo continua inerte e o setor continuar diminuindo, ficará apenas algumas unidades mais eficientes por conta de clima, solo, logística, tecnologia e de escala. Nós estamos vendo hoje uma redução no interesse dos investimentos, de investidores externos no setor, já houve uma perda significativa de valor de negócio. Isto joga contra a demanda que é crescente e o produto não tem mais uma apresentação, justamente porque há a barreira da gasolina. Basta uma ação do governo para conseguirmos recuperar a capacidade competitiva do setor. Com isso, nós podemos alcançar uma fatia maior desse mercado, mesmo porque daqui a cinco anos, se não houver uma retomada na produção do etanol, nós teremos um colapso no abastecimento da gasolina. 


Revista Cana S.A. – E como isso poderá ocorrer?

Celso Junqueira – O programa da Petrobras, pressupõe uma mistura de etanol a nível de gasolina e ainda há uma participação para complementar a matriz de combustíveis no ciclo do álcool. Isso significa que não é uma questão simplesmente de mercado. Mas há uma questão estratégica da Petrobras que apostou nos Parques de Refinaria e depende de um volume único de etanol necessário para que tenha uma ação por parte do governo. Então, por pior que seja o cenário dentro de cinco anos, alguma medida terá que ser tomada, o que não pode é ser tomada muito tarde, porque aí não teremos tempo de recuperação. O investimento para uma usina, o greenfield [que é uma nova usina que produz açúcar e bioenergia, além do etanol] precisa iniciar com três a quatro anos de antecedência. O ciclo de maturação de um projeto é de três anos. Então qualquer medida que se tome agora, você vai ter uma unidade madura daqui a seis anos. E as unidades que existem tem uma capacidade limitária de expansão. O abastecimento será necessário no futuro e se dará obrigatoriamente com novas unidades e isso não pode demorar. Aliás, já está tarde e estamos atrasados. Parece um absurdo, mas deveria ser muito fácil de fazer uma projeção de futuro. Se o Brasil tivesse um planejamento e houvesse uma racionalidade das ações o setor não estaria nesta situação. Mas infelizmente não é isso que nós estamos vendo, eu não acredito que isso irá permanecer por muito tempo, alguma coisa deve acontecer nesse período. 


Revista Cana S.A. – O senhor se mantem confiante e otimista com o setor?

Celso Junqueira – Sim. Eu prefiro estar neste setor, onde você tem um reconhecimento internacional das vantagens internacionais e tem um mercado crescente garantido, do que ficar em um setor onde a demanda é reduzida a cada ano. O problema que eu vejo é com relação à falta de política pública e visão de governo. A imprensa tem papel fundamental no país para fazer com que haja uma celeridade na percepção dessa a ação de governo não para este setor, mas como um todo.



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