Impulsionada pela demanda global por materiais para energia limpa e tecnologia, como o lítio, e pelo aquecimento do mercado das chamadas “terras raras”, a procura por propriedades com potencial para a produção de minério no Brasil deve apresentar um salto nos próximos meses. O país abriga a segunda maior reserva mundial de terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de diversas tecnologias avançadas, mas que ainda é pouco explorada. Este cenário, porém, está perto de mudar, com a perspectiva de grandes investimentos estrangeiros para a produção. Um estudo recente feito pela UBS Global Wealth Management mostrou que, entre outras iniciativas, atualmente há três grandes projetos de mineração em andamento que, ao todo, devem receber mais de R$ 3 bilhões em investimentos: dois em Poços de Caldas (MG) e outro em Minaçu (GO).
Especialistas do mercado de propriedades rurais avaliam que a chegada desses recursos pode gerar um efeito positivo para a valorização das terras brasileiras, a partir da procura de novos investidores. Mas quanto vale, atualmente, cada hectare com potencial para a mineração?
De acordo com o Índice Chãozão Valor do Hectare (ICVH) — primeira ferramenta que reúne dados de mercado e calcula o valor médio das terras por localidade no país —, o preço médio atual do hectare das propriedades com essa aptidão é de R$ 11.885,40. O levantamento foi realizado a partir da base de dados do Chãozão, maior plataforma brasileira de compra e vendas de imóveis rurais, com cerca de R$ 410 bilhões em propriedades anunciadas (Valor Geral de Vendas), entre sítios, chácaras, fazendas, ranchos e haras, que podem ser filtradas por localidade, aptidões, extensão territorial, entre outras características importantes para cada finalidade.
“Nosso país possui uma grande quantidade de terras com aptidão para a mineração que ainda não estão sendo exploradas, e este movimento abre muitas possibilidades. Recentemente, iniciamos conversas como um importante grupo argentino do segmento lítio, que nos procurou para uma parceria estratégica. Mas é importante lembrarmos que a propriedade da terra não garante, por si só, o direito à exploração mineral, sendo fundamental seguir o trâmite legal junto aos órgãos ambientais. Ainda assim, o aumento do interesse pelo setor e a chegada efetiva de investimentos apontam para um cenário promissor e de avanços significativos nos próximos anos”, afirma Geórgia Oliveira, CEO do Chãozão.
Apesar de as reservas de lítio não serem categorizadas como “terras raras”, a alta recente na procura por este mineral também é baseada em seu potencial sustentável, sendo essencial, por exemplo, para a produção de baterias de carros elétricos e outras tecnologias. Países como a Índia já tem incentivado suas empresas a investirem em terras no continente sulamericano, que abriga o chamado “Triângulo do Lítio”, composto por Argentina, Bolívia e Chile. A região concentra cerca de 60% das reservas globais desse mineral, considerado importante para a transição energética. Esse movimento também deve respingar no Brasil, atualmente a quinta maior reserva de lítio no mundo. Segundo a consultoria A&M Infra, o Brasil deverá crescer de 2% para 25% da produção global de lítio nos próximos anos. Em termos de investimentos, o Ministério de Minas e Energia (MME) estima que os valores aplicados na produção interna podem atingir R$15 bilhões até 2030.
A ascensão dos carros elétricos é outro fator que deve impulsionar os investimentos na produção de lítio no Brasil. Um exemplo é a região conhecida como ‘Vale do Lítio’, em Minas Gerais, que se destaca por sua grande reserva desse mineral, essencial na produção de baterias para veículos da categoria e outros dispositivos eletrônicos. Documentos divulgados em fevereiro deste ano mostraram que a montadora chinesa BYD já adquiriu os direitos de exploração de lítio em 852 hectares (8,5 km²) de área no município de Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha.
Também essencial para o crescimento da energia sustentável, o cobre, por sua vez, enfrenta desafios diante da alta procura. Enquanto a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a demanda global por cobre irá ultrapassar a casa dos 36 milhões de toneladas até 2040 (quase 40% em relação a 2024), a produção em escala mundial não acompanha o ritmo, devido a fatores como logística e licenciamento ambiental. Em audiência pública no Senado Federal, o diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral do MME, Rodrigo Cabral Cota, reforçou que “sem resolver o problema do cobre, todo resto da transição energética fica em risco”, o que dá margem para o incentivo à exploração do minério em terras brasileiras, já que, segundo ele, para eletrificar a economia global será necessário, até 2040, “extrair mais cobre do que tudo o que já foi minerado na história”. Cota entende, porém, que esse processo deve ocorrer de forma ambientalmente viável.
De acordo com o Ministério de Minas e Energia, atualmente existem 13 grandes projetos voltados para a produção de cobre em estados como Pará, Goiás, Mato Grosso e Bahia. No ano passado, o Brasil exportou mais de 4 bilhões de dólares em minérios de cobre, ficando atrás apenas da exportação do ferro. Atualmente, o País ocupa a 12ª posição no ranking mundial de produção, com mais de 11 milhões de toneladas em reservas de cobre conhecidas.












