A assinatura do decreto que cria o Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos (Pronara), no último dia 30 de junho, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reacende um debate urgente: a dependência cada vez maior de insumos químicos na agricultura brasileira, especialmente na produção de soja, a principal commodity do país.
De acordo com o estudo “Brasil como líder mundial em produção de soja: até quando e a que custo?”, do Instituto Escolhas, os números são expressivos: em 1993, um quilo de agrotóxico era suficiente para produzir 23 sacas de soja. Trinta anos depois, a mesma quantidade do produto gera apenas sete sacas. No mesmo período, o uso total de agrotóxicos na soja saltou de 16 mil toneladas para 349 mil toneladas, um aumento de 2.019%.
Produtividade cresce menos que o uso de insumos
O levantamento também aponta que a área plantada com soja quadruplicou, passando de 11 milhões de hectares em 1993 para 44 milhões em 2023. Mas a produtividade cresceu bem menos, de 2.120 kg/ha para 3.423 kg/ha — um avanço médio de apenas 2% ao ano.
Esse desequilíbrio acende o alerta: o crescimento da produção brasileira está mais baseado na expansão de área e no uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes do que em ganhos reais de produtividade.
Além do impacto ambiental, o modelo começa a mostrar sinais de ineficiência econômica. Em 1993, bastavam 11 sacas de soja para o produtor rural cobrir os custos com sementes, defensivos e fertilizantes. Em 2023, foram necessárias 23 sacas — mais que o dobro.
“O produtor usa cada vez mais agrotóxicos e fertilizantes para produzir cada vez menos soja. Isso afeta diretamente sua renda, que também sofre com o aumento dos preços desses insumos”, explica Jaqueline Ferreira, diretora de pesquisa do Instituto Escolhas.
Pronara e agricultura familiar
O decreto que institui o Pronara foi assinado durante a cerimônia do Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026, mas seus efeitos devem ultrapassar os limites da agricultura de pequeno porte. A soja, por exemplo, representa 26% do valor financiado pelo Pronaf, ficando à frente de outras culturas como milho (15%), café (6%) e trigo (6%).
Ainda que a agricultura familiar seja beneficiada com crédito e políticas de incentivo, é a agricultura empresarial que lidera a produção das culturas mais dependentes de insumos químicos — como a soja. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, 1,46% dos estabelecimentos respondem por 23,46% da produção nacional de soja, cultivando áreas entre 2.500 e 10.000 hectares.
Desafios futuros
O Brasil deve colher 168 milhões de toneladas de soja na safra 2024/2025, mantendo sua posição de liderança no mercado global. Mas os dados do estudo levantam uma questão inevitável: até quando esse modelo será sustentável?
A criação do Pronara, com políticas públicas voltadas à redução de agrotóxicos e ao incentivo de práticas agrícolas sustentáveis, surge como uma tentativa de equilibrar produtividade, economia e meio ambiente












